Você sabe reconhecer o seu potencial?

Eu amo escrever. Perdi as contas de quantos blogs já tive de minha pré adolescência até hoje. Muitos contos escritos no papel, outros redigidos no computador, um livro registrado na Biblioteca Nacional…
Uma de minhas tantas decepções é, ao longo desses anos, não ter conquistado um público coeso que acompanhe meus escritos.
Gosto de escrever e gosto do que escrevo. Sempre releio meus textos várias vezes com verdadeiro orgulho, como quem admira um filho. Sei que escrevo bem pois observo a escrita de pessoas a minha volta e fico surpresa como pessoas, inclusive de cargos de liderança, escrevem mal.
Mas as vezes acho que não importa quão bem eu escreva, o quanto eu goste disso, quão interessantes sejam os meus textos e o quanto eu me esforce, eu nunca vou ser reconhecida a ponto de fazer dinheiro ou tirar alguma vantagem real disso!
Na quarta série do ensino fundamental cheguei a ganhar um concurso de redação na escola o qual guardo a medalha até hoje. No ensino médio a professora de português elogiava minha escrita enquanto o de filosofia me perguntava se eu queria ser advogada pois eu argumentava muito bem! Lembro de acreditar que ainda que fosse péssima em física, química e matemática, minha ótima escrita faria eu me destacar! E então, no ENEM, minha nota da redação veio como uma facada nos flancos: quinhentos e qualquer coisa. Eu não sei como funcionam as notas do ENEM hoje, mas na época, a redação valia mil pontos. Foi como tirar um 5. Foi como tirar a média. Foi como se todos aqueles elogios que eu recebera caíssem por terra. Então eu só era boa no microverso de alunos que meus professores lecionavam? Ao expandir o N de participantes eu era só “na média”?

Você já ouviu falar da Síndrome do Impostor? Trata-se de um fenômeno onde uma pessoa não consegue reconhecer seus méritos diante de suas conquistas. A pessoa que sofre da Síndrome do Impostor acredita que tudo o que ela alcançou não foi por seu talento, habilidades ou conhecimentos e sim por mera sorte e acha que a qualquer momento ela será desmascarada. Trocando em miúdos, a pessoa é boa em algo mas não enxerga isso.
Existe no entanto algo que eu creio ser o oposto disso: o Efeito Dunning-Kruger.
Este efeito, que foi descrito pelos psicólogos David Dunning e Justin Kruger, acontece quando um indivíduo acredita ser muito bom em algo sobre o qual não tem conhecimento. Sua incompetência é tamanha que sequer tem a capacidade de reconhecê-la. Se ao ler isso você concluiu que sofro do efeito Dunning-Kruger em relação à minha escrita: touché! É provável que seja mesmo. E confesso que isso não acontece somente em relação a isso senão em outras áreas de minha vida também.
Mas antes que você me julgue, saiba que todos nós sofremos disso em algum grau sobre algum aspecto. É comum superestimarmos nossas habilidades, seja achando que dirigimos melhor que a maioria, que fazemos nosso trabalho melhor que nossos colegas, ou que sabemos muito sobre determinado assunto.
Isso se torna cada vez mais comum ao passo que coaches vem ganhando espaço transmitindo pouco — ou nenhum — conhecimento prático ao mesmo tempo que alimentam um discurso vazio de “acredite no seu potencial!”
Alguns anos atrás, antes de conhecer o termo Dunning-Kruger, fiz um teste que consistia em uma auto-avaliação onde tínhamos que apontar o nível de habilidade que acreditávamos ter em diversas áreas. Após respondermos as questões nos foi dito que numa entrevista que havíamos feito semanas antes com uma psicóloga, ela também havia preenchido tal teste com as habilidades que observou em nós e poderíamos então comparar nossas respostas com as dela. Imediatamente eu pensei: “Ah, certamente a avaliação da psicóloga vai mostrar que tenho melhor desenvoltura do que eu penso ter pois eu estou sempre subjugando minhas capacidades e me colocando pra baixo”. Qual foi minha surpresa ao ver que não só o meu o resultado, mas o da maioria das pessoas presentes, foi exatamente o oposto. Nós temos uma tendência natural de nos supervalorizarmos!

É importante nos darmos conta disso e observarmos o efeito Dunning-Kruger em nós e nas pessoas a nossa volta afim de não darmos poder para Olavos de Carvalho, Trumps e Bolsonaros. O que estas três personalidades tem em comum é uma fé inabalável de que possuem um alto grau de inteligência e de competência para ocuparem as posições nos quais foram colocados por pessoas que acreditavam entender de cidadania, justiça e política sem nunca terem sequer aberto a porra do Google pra se certificarem se mamadeiras de piroca existem.
Enquanto alguns sábios sofrem da Síndrome do Impostor, alguns impostores sofrem de Superioridade Ilusória e saber reconhecer o seu potencial exige que você reconheça também suas limitações.

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