Você não está preparado(a) para que eu tenha filhos!

Se você é uma mulher sexualmente ativa, basta uma simples tontura para levantar o questionamento: tá grávida???
Apesar de achar bastante inconveniente, as vezes me pego perguntando isso à outras mulheres. Não adianta. É cultural.

É com certa frequência que ouço mães rebatendo mulheres que não querem ter filhos. “É incrível”, “Eu também não me via mãe até ser” “É a ordem natural das coisas” e etc.
Ainda que você diga que não se sente preparada pra abrir mão dos seus privilégios pra garantir a sobrevivência de outro ser ou ainda porque você simplesmente não tem vontade, as pessoas sempre tem um argumento pautado na emoção.

Eu já quis ser mãe. Quando eu era criança/adolescente e acreditava que era fácil ter uma mansão com piscina e fazer viagens internacionais todo ano, eu queria ter filhos.
Hoje, com quase 30 anos, tendo passado por um casamento, vendo amigas próximas virarem mães e ganhando um salário que não me permite nem pagar um aluguel, a vontade de viajar e conhecer o mundo segue viva. A de ser mãe não.
Não posso afirmar com certeza que nunca vou querer ter filhos. Tenho consciência de que quando meu corpo perceber que meus óvulos estão ficando escassos, meus hormônios muito provavelmente irão enviar pro meu cérebro a mensagem de que precisamos procriar. E aí, não sei como irei agir. Mas as pessoas não respeitam este tempo.
A sociedade quer que tenhamos filhos! Porém querem que criemos nossos filhos do jeito deles.

Se eu tivesse filhos, estas pessoas que tanto me importunam para tal, certamente não respeitariam minha forma de criá-los. Pois não basta ter um filho. Você tem que criar um cidadão cristão e vestir de azul se for menino ou de rosa se for menina.

Se eu tivesse um filho, a primeira coisa que chocaria algumas pessoas é o fato de que eu me recusaria a batizar a criança. Mas como nem só de católicos vive nossa sociedade, muitos diriam que tudo bem, afinal quando ela crescer ela escolhe qual religião seguir, o importante é acreditar em Deus. E é aí que eu revoltaria a maioria das pessoas: eu não criaria meu filho sob os “preceitos de Deus”. Se eu vier a ter um filho vou deixar bem claro para ele que não há evidencia nenhuma da existência de um deus. Que a mitologia cristã, a nórdica, a grega, a egípcia… todas são igualmente interessantes.

Não permitiria que nenhum adulto falasse de criacionismo para meu filho como se verdade fosse pois eu não gostaria que ele tivesse as dificuldades de aprendizado que eu tive na minha fase escolar. Ensinaria a ele que algumas pessoas acreditam em vários deuses, outras acreditam em apenas um, mas o papai e a mamãe não acreditam em nenhum.
(É engraçado pensar que algumas pessoas já se revoltariam só em ler este meu relato, como se isto fosse uma atrocidade).

Meu namorado certamente leria O Manifesto Comunista pra ninar a criança e faríamos ela entender que ter dois pais é tão normal quanto ter duas mães que é tão normal quanto ter um pai e uma mãe.
Se tivéssemos um filho que pedisse uma festa de aniversário com o tema Frozen, faríamos com a mesma alegria com a qual faríamos uma festa do Homem Aranha pra uma filha.

E se na adolescência nosso filho perceber que não se encaixa no gênero definido por sua genitália e decidirmos optar pela interrupção de sua puberdade? (Não preciso dizer que isso seria feito sob toda a orientação médica e psicológica necessária, preciso?).

Tenho certeza que muitas destas pessoas que insistem pra que eu tenha filhos se indignariam diante destas minhas declarações. Alguns tentariam ensinar meu filho a rezar pro “papai do céu” e questionariam porquê eu dei uma fantasia de super herói pra minha filha.

Assim como nós temos nossos motivos para não nos sentirmos preparados para gerar uma vida, acredite, estas pessoas também não estão preparadas para que pessoas como nós tenham filhos!

Acreditar que elas venham a reconhecer por si mesmas o inconveniente dessas cobranças é bastante utópico. Portanto treinemos nossa paciência para que não sejamos rudes diante delas, ainda que tal austeridade de nossa parte seja totalmente compreensível.

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.

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