Dia desses uma influencer postou foto tomando vacina contra a covid e postou nos stories agradecendo. Ao SUS? Aos cientistas que desenvolveram as vacinas? Não, a sí mesma. A ela mesma e a todos os contribuintes de impostos, desprezando todos os trabalhadores envolvidos no processo de pesquisa, distribuição e aplicação da substância em nossos bracinhos. Mas afinal, o que esperar de alguém que no passado deixou um funcionário trabalhando trancado no escritório de madrugada, dentre outras coisas que a bonita e seu marido foram acusados de submeter os trabalhadores de sua empresa, não é mesmo?

Como isto é bastante recente, no momento que escrevo este texto, esta imagem circula a internet e nos comentários a gente sempre vê algumas pessoas dizendo “Puxa, o que houve com ela? Gostava mais dela quando só fazia bolos”, “Que decepção, gostava tanto dos vídeos deles sobre viagens”, “Depois que se tornaram couches, só falam besteira” e outras variações deste tipo de mensagem que carregam mais ou menos a mesma ideia de que ela e seu cônjuge, mudaram. “Ela mudou” é também uma frase que vi ser dita muitas vezes sobre uma outra youtuber que eu costumara acompanhar. Já falei sobre ela noutros textos e caso pareça algum tipo de cisma com a pessoa, é só falta de referencial mesmo. É a única influencer que acompanhei durante um tempo mas parei, pois de fato percebi uma grande mudança. Só que em mim.

Quando a gente se decepciona porque alguém que a gente seguia e/ou admirava não se posiciona diante da política de morte que estamos vivendo ou se posiciona com uma fala ridícula e desprezível, será que essa decepção se dá realmente pelo fato de a pessoa ter mudado? Ou será que esta pessoa pensou sempre desta forma e só não tinha tido a oportunidade de demonstrar isso. Ou ainda, será que no passado nós concordávamos com ela e hoje vemos a situação de outra forma?

É claro que uma situação não exclui outra. O fato de eu ter plena ciência de que eu mudei, não significa automaticamente que o outro não mudou. Pode sim ter havido mudança de ambas as partes. No entanto a gente tende a não olhar muito para nossas próprias mudanças. Eu, por exemplo, definitivamente não sou a mesma pessoa.. Cerca de 3, 4 anos atrás eu me considerava uma pessoa de centro que rechaçava os extremos e me orgulhava disso. Estranho seria se diante de tudo o que ocorreu de lá pra cá eu me mantivesse na mesma posição. Em vez disso, conheci pessoas, li, me radicalizei, me tornei comunista. É possível que a Ana Claudia de 2016, 2017, que consumia conteúdo de coach liberal e não tinha consciência de classe, concordasse com a ex-confeiteira em sua infeliz fala sobre as vacinas. Não vou nem me aprofundar na problemática da fala dela pois não é a isto que este texto se propõe. O mesmo sobre a menina que ganhou fama falando sobre cabelos cacheados. Ela mudou? É possível, mas eu não mudei também? E talvez tenhamos mudado para direções opostas ficando ambas distantes daquele ponto que tínhamos em comum e ainda mais longe da posição que a outra ocupa agora. Reconhecer que não foi somente o outro que fez este movimento é algo interessante. E você, mudou?

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.

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