Qual a relação entre o capitalismo que te oprime e o ciúmes que te corrói?

Me lembro quando tempos atrás, em outro relacionamento, eu acreditava que não era possível amar sem sentir ciúmes. No entanto naquela época, eu não tinha consciência de todos os fatores que me aproximavam do ciúmes. Hoje, além de sentir uma liberdade gigantesca e uma alegria sem igual por ter me livrado de tal fardo, tenho também muito mais clareza sobre quais aspectos influenciam nossas vidas e nossos relacionamentos interpessoais, sejam eles amorosos ou não.
Tal clareza não veio por iluminação dívida senão por anos de terapia e estudos que ainda estão em curso.

Ainda que nossa sociedade considere a traição um comportamento condenável, quando parte do homem, ela é comumente justificada por ele e/ou por outras pessoas desta mesma sociedade como fruto do “instinto masculino”. Podemos até mesmo encontrar tal justificativa na literatura popular como no livro “Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?” de Alan e Barbara Pease, que em diversos trechos afirmam que o homem primitivo era poligâmico e a mulher era por sua vez monogâmica.

Porém, convenhamos que se até hoje existem povos que praticam poliandria (uma mulher casada simultaneamente com vários homens), imagine milênios atrás com uma diversidade muitíssimo maior de culturas. É demasiado tendencioso afirmar que o comportamento humano diante do matrimônio era algo homogêneo em todo o planeta.
Como podemos observar no livro “A origem da Família da Propriedade Privada e do Estado” de Engels, existiram vários modelos de família. Um destes modelos consistia em um matrimônio em grupo onde vários homens relacionavam-se com diversas mulheres que por sua vez também se relacionavam com vários homens da tribo. Os filhos destes matrimônios eram criados também de forma comunitária.

Quando o ser humano deixa de ser um caçador coletor e passa a ser proprietários de terras, dá-se início à monogamia. Para que se garanta que as propriedades de um homem serão herdadas por seus filhos legítimos é exigida a fidelidade feminina. Ao homem é concedido o poder sobre suas terras, sua esposa, seus filhos e escravos, podendo decidir inclusive sobre a vida e morte de todos eles. Diante de tais circunstâncias podemos notar que o adultério mostra-se muito mais conveniente e seguro ao homem do que à mulher visto que esta pode ser castigada com a morte.

O ciúmes surge pautado na propriedade. A infidelidade de minha mulher pode resultar na transmissão de minha propriedade ao filho de outro homem. A infidelidade de meu marido pode resultar na partilha dos bens de meu filho com o filho de outra mulher.
Além disso, neste cenário (e até hoje eu diria) há ainda o agravante de que a mulher foi totalmente tolhida de seu direito em se relacionar com outros homens enquanto é socialmente aceitável que o homem tenha relacionamentos extra-conjugais.

Patrimônio: do latim (patri = pai + mônio = ação, estado ou condição). O termo está historicamente ligado ao conceito de herança.

Matrimônio: do latim (mater = mãe + mônio) daí o santo matrimônio indicar o sacramento em que a mulher adere ao estado que confirma sua abertura à maternidade.

Com o passar do tempo foi sendo difundida a ideia de amor romântico e as uniões entre os casais passaram a ser motivadas por ele. Então, soma-se às questões de propriedade, a posse sobre o amor do outro.
O número de feminicídios não deixam dúvidas de que o ciúmes masculino está calcado numa cultura que outrora lhe concedeu o direito sobre a vida da mulher.

O ciúmes feminino no entanto está mais baseado na insegurança. Se o homem “comete o deslize” de trair sua companheira, a mulher é responsabilizada por “não ter sido capaz de mantê-lo interessado”.
Se trouxermos a discussão para tempos ainda mais recentes, adicionemos também à esta equação o advento da tecnologia que nos expõe diariamente a padrões irreais de beleza que nos leva a insatisfação com nossos próprios corpos. Cremos que ao serem expostos a estes modelos de perfeição, nossos companheiros perderão o interesse por nós. E como é de nossa responsabilidade mantê-lo, a saída que muitas mulheres encontram é coibir seus parceiros de verem e/ ou interagirem com outras mulheres, pois aquilo que não se pode ver não se pode desejar.

Se antes eu acreditava que era impossível amar sem sentir ciúmes, hoje percebo que na verdade, o que é inseparável do ciúmes é o sentimento de posse. Ainda que eu não acreditasse que nutria tal sentimento ele estava lá. Quando eu enxergava meu ciúmes como mero cuidado, ele estava lá. Quando o ciúmes se tornou possessivo ele estava muito lá.

Desprender-se de tal sentimento torna-se um pouquinho mais fácil quando a pessoa que você ama também tem consciência sobre todas estas coisas. Quando a ela também lhe causa repulsa toda a hipocrisia burguesa contida nestes conceitos.

O ciúmes tem sua origem junto ao conceito de posse e são portanto inseparáveis.

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.