Os astros não dizem nada sobre você

Certa vez li o desabafo de uma moça no Twitter onde ela contava sobre uma conversa que havia tido com a mãe. Ela dizia que após explicar pra mãe porque estava frustrada com certas atitudes dela a mãe compreendeu tudo errado e tomou mais uma atitude que a frustrou.
A moça terminava dizendo: “odeio pessoas do signo x”.
Claro que ela não odeia sua progenitora, não é esta a questão. Mas para a moça, as atitudes de sua mãe foram ditadas por seu signo.

Atribuir aos astros as atitudes e escolhas das pessoas é leviano e insensível.
É reduzir a nada todas as experiências pelas quais a pessoa passou em sua vida.

Nós somos nossos pensamentos, atitudes e escolhas, e tudo isto é o resultado de um algoritmo. Um algoritmo composto de toda a nossa história de vida, de todas as situações pelas quais passamos, de todas as pessoas que passaram por nós.

Cada nova escolha tem um desdobramento que irá influenciar nas nossas próximas atitudes. Não tem a ver com a data que você nasceu, tem a ver com todas as coisas que você já viveu até hoje.

Claro que, até mesmo acreditar em horóscopo, pode influenciar nosso modo de agir. Por exemplo: digamos que é de conhecimento popular que pessoas de tal signo são arrogantes. Se eu sou deste signo e acredito nisso, posso acabar sendo displicente no tratamento às pessoas a minha volta já que tenho o aval da astrologia para ser antipática.

O fato de você acreditar em horóscopo diz mais sobre você do que o seu signo.

É bastante irritante que as pessoas deem tanta credibilidade a algo tão patético. Algo que reduz a complexidade humana a um gabarito. “Se nasceste entre tal e tal data, és assim:”

Conheço ateus que acreditam em horóscopos e não vejo o menor sentido nisso. A astrologia atua de forma parecida com a religião. Se ela acerta, recebe todas as glórias, se erra, então você não está vendo pelo ângulo correto.

“Se não te identificas com teu signo, consulta teu ascendente”, “se não te reconheces em teu ascendente, vê tua lua”, “se tua lua não te diz nada, faz teu mapa astral” e “se nada disso estiver certo, ainda temos o horoscopo chinês, o egípcio, o druida…”. É como pintar um alvo em torno de uma flecha.

Acho também curioso que muitas das pessoas que simpatizam com a astrologia tenham um alinhamento político mais à esquerda. São muitas vezes militantes, que abominam preconceitos, no entanto, será que não se dão conta que horóscopos nada mais são do que conceitos pré estabelecidos para definir as características de uma pessoa baseados na data em que ela nasceu?

Não posso dizer que sou super entendida da causa negra, apesar de minha origem (meu pai é negro), mas já ouvi alguns ativistas falarem sobre a objetificação sexual da pessoa negra. Negros são vistos como ótimos amantes, porém muitos vivem em solidão pois, por diversas vezes, as pessoas com quem eles se envolvem não tem a intensão de se relacionar além da cama.

Porém, como condenar isto e não estranhar quando dizem que “pessoas do signo de escorpião são bons de cama, mas tem uma personalidade péssima!”?

Você pode afirmar que o preconceito racial é mais nocivo pois mata, o que não é mentira, mas agora vamos optar por adotar o preconceito menos nocivo? Aquele papo de construir pontes em vez de construir muros foi substituído por “vamos construir muros menores”?

O ser humano é pré-disposto a acreditar no sobrenatural (creio que por isso que, mesmo ateus, dão credibilidade aos astros). Não estou afirmando categoricamente que o sobrenatural não existe, eu não teria como fazê-lo. No entanto sou cética e lido bem com a ideia de não existir nada místico ainda que certas coisas não tenham explicação. Entretanto, algumas pessoas que também se consideram céticas afirmam que astrologia é uma ciência.

Astrologia é, na verdade, uma pseudociência.

“Pseudo: De teor falso; cujo conteúdo não corresponde à realidade.”

“A pseudociência é frequentemente caracterizada pelo uso de afirmações vagas, exageradas ou improváveis, uma confiança excessiva na confirmação, em vez de tentativas rigorosas de refutação, a falta de abertura para a avaliação de outros especialistas, e uma ausência generalizada de processos sistemáticos para desenvolver teorias racionalmente.”

Outra pseudociência que me tirou do sério recentemente foi a tal da constelação familiar. Um colega de trabalho compartilhou uma baboseira qualquer de uma coach no Instagram e eu entrei no perfil dela pra passar raiva. Um dos posts dizia que quando nos envolvemos sexualmente com uma pessoa ficamos ligados à ela por um “fio energético”. Segundo ela, isso faz com que troquemos “informações íntimas energéticas” com os parceiros sexuais ainda que à distância e que ao nos relacionarmos com pessoas problemáticas ou desequilibradas isso traria problemas para nós nos fazendo ter significativas mudanças comportamentais e de atitudes.
Ela afirma também que fazer sexo sem amor gera “bloqueios energéticos” deixando a “aura escura e enfraquecida”.

E termina dizendo: “chega de carregar más vibrações que não são suas, tenha ciência das consequências de seus atos. Liberte-se da compulsão sexual pois nada sai impune. Namastê”.

E aí, eu te pergunto, qual a diferença entre este discurso e a política de abstinência da Ministra Damares?

Quando vi a postagem pela primeira vez ela dizia que a ÚNICA forma de desfazer este vínculo era com um tratamento X — que obviamente é um dos serviços que ela oferece. Não me impressiona nada que na mesma postagem onde ela apresenta o problema, já venda também a solução. Porém, ao consultar novamente o post para escrever este texto que você lê, vi que ela apagou esta informação e agora diz que este tal “fio energético” pode durar meses. Será que foi porque eu comentei revoltosamente a postagem dela questionando as consequências dessas afirmações hediondas para uma vítima de estupro? Eu acredito que sim pois meus comentários sumiram magicamente.

Pois então, as vítimas de estupro devem estar muito confortadas agora que sabem que ficarão apenas algum tempo com uma “ligação energética” com seu algoz não é mesmo?

Não é engraçado que ontem o “fio energético” só se desfizesse por meio de uma terapia mística e hoje ele dure somente alguns meses? Se isso não basta como evidência de charlatanismo, não sei o que mais deveria bastar.

Não é de se admirar que outro serviço oferecido por esta pessoa seja elaboração de Mapa Astral.

Enquanto existirem pessoas que acreditam nestes absurdos, teremos vigaristas ganhando dinheiro às custas delas. De que adianta criticar as igrejas que comercializam o sofrimento e a fé alheia enquanto se deixa levar por estes pastores esotéricos?

Não nos esqueçamos que Olavo de Carvalho, símbolo da boçalidade, que se auto-intitula filósofo, foi outrora astrólogo. Portanto, antes de afirmar que astrologia, esoterismo e misticismos são inofensivos, lembre-se de que eles também são dogmas e que há todo um mercado totalmente desonesto que explora isso.

De fato, não é cômodo questionar nossas crenças mas posso afirmar com total certeza: é libertador!

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.

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