Em nosso dia-a-dia não nos damos conta de que algumas ideias e expressões são comuns entre as pessoas à nossa volta.

Nos últimos tempos tenho reparado mais em algumas dessas ideias que sempre estiveram por aí. Num curto espaço de tempo, durante conversas despretensiosas ouvi 3 pessoas diferentes falarem coisas como: “O que me conforta é saber que gente de má índole sempre cai”, “O mal nunca vence” ou ainda “Deus não dá filhos pra pessoas de coração ruim”.

Eu acredito que esta ideia quase infantil — e com infantil aqui quero dizer inocente — veio do mito criado pelas religiões de que “o bem prevalece”.
Creio que o conceito maniqueísta de bem e mal esteja mais ligado às religiões monoteístas.
As que cultuam vários deuses tendem a enxergá-los um pouco mais humanos, com mais nuances. Digamos que no cristianismo, Deus e Lúcifer são representados por cores sólidas e na mitologia grega por exemplo, cada deus seria representado por um gradiente. Ainda assim, pelo papel moral assumido pelas religiões, sejam elas quais forem, a ideia de ser uma pessoa boa é, digamos assim, bastante difundida.

Karma, lei do retorno, justiça divina… seja qual o nome dado, a ideia é sempre a mesma:

“os humilhados serão exaltados”.

Os motivos da disseminação desta ideia são bastante óbvios:

  1. o controle pelo medo: se você fizer o mal o mal retornará para você.

O que seria do mundo se todos achassem que o crime compensa? A prática da moralidade talvez fosse ainda mais rara, não fosse o medo de queimar no inferno por toda a eternidade bem como os níveis de depressão talvez crescessem exponencialmente, não fosse a crença de que o mal perecerá.

Infelizmente eu não creio que a realidade siga sempre tal regra. Não acreditar em nada místico, divino ou superior nos faz ver o mundo de forma mais prática.
A vida real não tem um script e não deve ser raro que pessoas ruins se deem bem — inclusive atingindo o sucesso de formas escusas — e passem toda uma vida impunes.
Tantos pais e mães tendo e negligenciando seus filhos, ou ainda, os maltratando, rechaçando e fazendo de suas vidas um verdadeiro inferno. Pessoas passando por sofrimentos reais, vítimas de seus progenitores e o senso comum dizendo que “Deus não dá filhos pra pessoas amargas”.

Atribuir a uma doença ou infortúnio o status de cobrança divina pelos erros da pessoa não faz sentido já que pessoas boas também passam por tais situações e podem até passar por sofrimentos maiores. No entanto para estes casos é atribuído o status de ‘provação’. Mas então, não são só nomes diferentes para a mesma situação?

Daí você pode me dizer que seria um mundo muito injusto se as maldades feitas por uma pessoa não cobrassem o seu preço. E eu te digo que é exatamente isto o que eu penso: o mundo é de fato injusto e o universo não assinou nenhum contrato conosco que o obrigue a atender às nossas expectativas.

Acreditar que o mal nunca vence pode ser reconfortante, mas não pode moldar a realidade. No entanto, não é por acreditar que algumas pessoas de fato se dão bem fazendo o mal que eu o pratique ou que eu concorde com quem o faz. Creio que temos de ser pessoas boas não por temermos um castigo nem por acreditarmos que teremos algum tipo de recompensa por isso e sim porque não é mais do que nossa obrigação como seres humanos.

Seria insustentável se todas as pessoas tentassem burlar regras, aplicar golpes, se dar bem em cima das outras. A sociedade ruiria. Não por castigo divino como retratado em passagens bíblicas como a do dilúvio.

O ser humano tem capacidade intelectual e bélica suficiente para destruir-se sozinho, sem a necessidade de nenhuma intervenção sobrenatural.

Existem àqueles que creem que a justiça divina será aplicada no ‘post mortem’ e os que preferem acreditar que ela virá ainda em vida. Se eu tivesse que escolher uma das duas narrativas, optaria pelo benefício da dúvida e acreditaria na possibilidade que não podemos atestar. Pois ao observar as injustiças do mundo à minha volta chego à conclusão de que o mal as vezes vence.

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.