Nossa sociedade enxerga a inveja como uma falha de caráter — que ninguém admite possuir — enquanto a consome em doses cavalares diariamente sem nem se dar conta. Ela é uma estratégia da indústria, é alimentada pelas propagandas, te faz comprar coisas que você não precisa.

Há um filme, que eu creio não ter feito muito sucesso visto que não se fala muito dele, chamado “Amor por contrato” (título original The Joneses). A trama conta a história da família Jones, um casal com 2 filhos que leva uma vida perfeita e abastada, exibindo suas posses na vizinhança onde moram e locais que frequentam, como qualquer família de classe média alta. No entanto, no decorrer da história vemos que eles não passam de atores contratados por marcas de luxo para utilizar seus produtos. Uma espécie de marketing de influência mas que no filme leva o nome de “marketing secreto”.

Lá em 2009, quando o filme foi lançado como uma crítica ao consumismo capitalista, o que esta família fazia parecia um total e completo absurdo. Mas então eu te pergunto o que são os “Influenciadores Digitais” se não os Joneses modernos?

Aliás, para a alegria das marcas, graças à internet os influenciadores tem a capacidade de atingir muito mais pessoas que a família do filme, que só impactavam àqueles com quem conviviam de fato.

Bem, você pode argumentar que, diferentemente da ficção, as pessoas que trabalham com marketing de influência não são atores e que posts patrocinados são sempre sinalizados. De fato estas afirmações não estão incorretas, mas pensemos um pouco além do óbvio: o que vemos nas redes sociais e vídeos de YouTube, não são apenas recortes das vidas dos tais “influencers” que eles escolhem mostrar? Da pra afirmar que aquilo se trata de fato de suas realidades? Além disso, quem nunca ouviu aquela história de pessoas que alugam quartos de hotel por um fim de semana, levam 4 ou 5 roupas de banho e tiram fotos para postarem o ano inteiro fazendo parecer que seus finais de semana são sempre glamourosos? A hashtag ‘ad’ (anuncio em inglês) tornou-se exigência do Conar (Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária) após várias propagandas veladas correrem as redes. E ainda assim, tem quem diga que algumas pessoas ainda as façam. Isto sem mencionar que, ainda que não esteja impulsionando nenhuma marca, ostentar uma vida abastada por sí só já é uma propaganda ao capitalismo. Faz parecer que este estilo de vida é algo acessível e que está ao alcance de todos.

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.

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