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Em fevereiro, enquanto eu comprava as passagens da Argentina para o Uruguai eu só pensava em uma coisa: o coronavírus não pode chegar à América do Sul até que minha viagem acabe. E em minha cabeça de fato daria tudo certo. Eu e meu namorado partiríamos do Brasil para a Argentina no dia 6 de abril, ficaríamos em Buenos Aires até dia 9 quando iríamos para Montevidéu e no dia 12 sairíamos de lá para ir comemorar meu aniversário em Punta Del Este. No dia 15 voltaríamos para Buenos Aires e no dia seguinte para o Brasil. Minha primeira viagem internacional! Ia ser incrível.

Em março tudo estava perdido. Fronteiras fechadas, voos cancelados, quarentena e a dúvida se teríamos de volta os valores já gastos.

Refletindo sobre o fato de que minhas férias este ano estariam arruinadas, lembrei-me dos outros dois períodos de férias que tirei.

O primeiro: eu trabalhava cerca de 1 ano e 10 meses no local mas ainda não havia tirado férias (nem tinha data marcada para tirar inclusive). Pedi demissão e me pediram que eu tirasse minhas férias e eles me demitiriam quando eu retornasse. Obviamente aceitei. Na época eu fazia faculdade e como as férias ocorreram de maio a junho, não pude viajar.
Não me lembro de nada além disso. Simplesmente não me recordo do que fiz neste um mês.

O segundo: trabalhava na empresa há cerca de 1 ano e 3 meses. Pedi que minhas férias iniciassem na quarta-feira de cinzas assim ganharia alguns dias graças ao carnaval. Eles concederam e assim foi. Novamente não viajei e não me recordo de nenhum feito memorável neste período.

Desta vez, estava tudo planejado para as primeiras férias onde eu viajaria, primeira viagem de avião, primeira viagem internacional, primeiro período longo a sós com meu atual namorado!

Mas aí a pandemia veio e esmagou nossos planos. E ela veio não só para abarcar nossa viagem mas também o nosso aniversário de namoro, meu aniversário de 28 anos, nosso noivado… obviamente seria ridículo me achar especial a ponto de crer que o universo está de alguma forma me punindo, afinal, este é um episódio que está atingindo o mundo inteiro. Mas eu não consigo afastar de todo este pensamento.

Em meio aos meus lamentos cogitei tal possibilidade: e se a vida for somente mazela? E se cada pessoa tem, na verdade, um universo projetado exclusivamente para ela? Como uma Matrix, mas diferente do filme onde a simulação é compartilhada, no meu devaneio cada um de nós estaria conectado a uma realidade diferente. A única coisa em comum seria o fato de todos vivermos uma vida medíocre. Na minha ou na sua simulação as Kardashians são uma família rica pra nos dar uma perspectiva de vida perfeita com dinheiro e fama nos causando inveja e frustração. Mas na simulação da Kim, talvez ela seja só um dos milhões de norte americanos que aplicaram para o seguro desemprego recentemente mas que sonha um dia ser rica como a Beyoncé. Beyoncé que por sua vez, talvez more no subúrbio de Nova York e que teve de abandonar o sonho de ser cantora pra ser garçonete e sustentar seus filhos.
Quem sabe eu fique aqui lamentando por não ser tão bem sucedida quanto minha amiga que já conheceu vários países, mas no universo paralelo projetado para ela, talvez o holograma que me representa seja uma mulher incrível que já viveu lindas aventuras as quais minha amiga gostaria de ter vivido.

Sim eu estou sugerindo que cada um de nós está conectado a uma espécie de realidade virtual onde o jogo se baseia em ter uma vida que varia entre depressão, mediocridade e pequenas — destaque para a palavra pequenas — alegrias, enquanto observamos vidas piores e é claro melhores, que não passam de uma simples projeção.

Você pode pensar que seria humanamente impossível programar 7,5 bilhões de realidades diferentes. E de fato, para humanos isso pode ser bastante moroso, mas pra um robô, talvez fosse bem fácil.

O tempo livre na quarentena, os filmes de ficção cientifica que eu adoro, as ideias futuristas que leio nos livros do Yuval Harari… tudo isso aliado ao fato de minha vida não ter tido grandes feitos me trouxeram este pensamento. Eu posso dizer que sei que não passa de um delírio doido no qual não acredito, mas que achei interessante registrar. Mas o fato é que com o passar dos anos eu vou reavaliar minha vida, minhas conquistas e reler este texto. E se os arquitetos que projetaram esse jogo quiserem que eu mude de ideia, é melhor não arruinarem meus próximos planos.

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