Quando criança, minha época preferida do ano era o mês de agosto. Eu adorava os trabalhos escolares sobre folclore. As lendas, os trava línguas, as crendices populares... achava tudo encantador.
É curioso que mitologias herdadas de nossos ancestrais indígenas sejam chamadas de lendas e ensinamentos passados de geração para geração nos sertões brasileiros sejam chamados de crendisses, mas que aqui no sudeste quando alguém afirma que "mulheres que convivem menstruam na mesma época" seja considerado verdade.
Outra crença comum diz que você deve escolher a fase da lua para cortar o cabelo afim obter o resultado desejado. Se você quer que ele cresça, deve cortá-lo na lua crescente, se quer volume, deve cortá-lo na lua cheia e assim por diante.
Qual a mulher que nunca buscou ajuda dos astros pra saber se o signo do boy combinava com o seu? E quem não sabe que sonhar com dente significa morte?
A homeopatia segue como opção de tratamento até mesmo na rede pública de saúde mesmo com estudos que desprovam sua eficácia.
Não é como se vivêssemos no século XX quando eu ainda fazia pesquisas sobre folclore numa enciclopédia e a internet engatinhava. Talvez nesse momento você esteja lendo esse texto pela tela de um smartphone que possui mais capacidade de processamento do que os primeiros computadores criados. Nós temos a informação literalmente na palma da nossa mão. Basta pesquisar um pouco para encontrar estudos sérios sobre a influência dos astros na nossa vida, sobre medicina alternativa e os mais diversos assuntos que permeiam nossa cultura. Sim, acredite! Há cientistas que se dedicam a estes estudos!
Mas se você não tem paciência para linguajar técnico, tudo bem! Hoje há muitos divulgadores científicos em canais do YouTube e Podcasts que explicam de forma muito didática tais pesquisas.
Não adianta criticar seu tio que nega a ciência e defende o uso da cloroquina para Covid-19 se você também nega colocando a culpa das coisas não estarem indo bem no "Mercúrio retrógrado".

Não da pra acreditar só na ciência que te convém!

Tornar-se cético, de fato não é algo que acontece da noite para o dia. É uma desconstrução diária e constante.
Meu discurso pode parecer, e até ser, meio cientifiscista. Talvez eu as vezes demonstre demasiado apego à ciência. Mas é importante lembrar que a ciência tem o compromisso de estar sempre em busca da verdade ainda que isto signifique admitir que esteve errada no passado. Tal postura não pode ser esperada das pseudo-ciências visto que estas não admitem questionamentos.
Para mim, todos os temas citados no texto são elementos folclóricos fantásticos a serem explorados como produtos culturais que são.
Para estudá-los como tal podemos nos utilizar da filosofia, sociologia e até mesmo da psicologia! Na psicologia inclusive, e possível analisá-los sob a ótica de várias abordagens: a Junguiana, a Fenomenologia, a Psicanálise...
É interessantíssimo, além de muito importante entendermos como a posição das estrelas era interpretada pelas sociedades humanas ao longo de sua trajetória na terra, mas não podemos ignorar todo o conhecimento que temos hoje sobre tal assunto.
Sonhos são perfeitamente interpretáveis mas isso não é feito consultando um catálogo e sim conversando com um psicólogo que poderá te auxiliar a compreender o que aquilo significa para você!
O que quero dizer com este texto é que, o fato de algo não ser real, não significa que isto não mereça nossa admiração. Saber que Harry Potter é uma obra de ficção não impede seus milhões de fãs de apreciarem a estória, a estética, os personagens e etc. E por mais que muitos se declarem decepcionados por não terem recebido sua carta de Hogwarts, todos sabem que ela não chegará por se tratar de uma fantasia.

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.

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