Image for post
Image for post

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará a seu tamanho original”

No momento em que começo a redigir este texto ouço os cânticos das igrejas evangélicas próximas à minha casa.

Não sei especificar há quanto tempo sou ateia. Tornar-me ateia não foi uma escolha, foi uma constatação.

Cresci numa casa onde minha mãe era católica não praticante e meu pai testemunha de Jeová. Não fui batizada e nunca me foi cobrado que frequentasse catequese ou as reuniões do Salão do Reino (apesar de eu ter ido a algumas).

Quando criança era muito confuso pra mim, aprender criacionismo em casa e evolucionismo na escola. Não entendia como Adão podia ter nomeado todos os animais se o homem pré-histórico era desprovido de léxico. Como ele poderia ter dado nome aos dinossauros se eles não foram contemporâneos? Hoje, adulta, vejo o quanto o criacionismo poderia ter atrapalhado meu aprendizado.

Sempre fui fascinada pelas histórias do antigo testamento, mas cresci, tive acesso a outras mitologias e meu fascínio por elas também era imenso! Deve ter sido nas aulas de filosofia que passei a me questionar porque o cristianismo é considerado verdade e as estórias gregas são apenas mitos se ambas são fantásticas?

“Fantástico:
adjetivo substantivo masculino

1. que ou aquilo que só existe na imaginação, na fantasia.

2. que tem caráter caprichoso, extravagante.

Este pensamento aliado a tomada de conhecimento de que a bíblia havia sido editada ao bel prazer de um imperador, (isso sem falar nas distorções após tantas traduções e do fator interpretação) me fizeram cada vez mais ver o livro sagrado, como apenas um mais um livro escrito por homens que podia servir de inspiração filosófica para a vida das pessoas mas não mais do que isto.

Cai aí o antigo testamento pra mim.

Talvez por inspirar este tipo de questionamento que a filosofia está sendo retirada da grade curricular de ensino.

Comecei a me interessar por publicações de divulgadores científicos como o astrofísico Neil Degreasse Tyson. Ler seu livro A Origem me fez lembrar como eu me sentia nas aulas de ciências da escola quando estudávamos os astros: insignificante diante da imensidão do universo.

Ainda acreditava que existia um deus, que poderia ter dado o start do big bang, que por sua vez deu origem ao universo. Mas eu não mais acreditava que o ser humano era especial.

É inconcebível que deus fique tão furioso com sexo antes do casamento quanto com um assassinato, visto que o primeiro não causa mal a ninguém.

Refletir sobre a crueldade das igrejas e de seus fiéis legitimadas pelos escritos também foram fatores decisivos para que eu abolisse todo e qualquer resquício de crença que ainda restasse neste livro.

Eu passei então a me reconhecer como deísta.

“O deísmo é uma posição filosófica naturalista que acredita na criação do universo por uma inteligência superior, através da razão, do livre pensamento e da experiência pessoal, em vez dos elementos comuns das religiões teístas como a revelação direta, ou tradição. Wikipédia”

Nesta fase era muito mais fácil questionar a existência de deus visto que eu não mais enxergava isto como errado e não temia nenhum tipo de punição por isso visto que não prejudicava a mim nem a ninguém.

Aqui é bom fazer um parêntese e comentar que eu nunca acreditei que iria para o céu ou para o inferno. Sempre acreditei que não haveria nada após a morte. Se eu fosse sofrer algum tipo de punição divina, acreditava que ela viria em meu tempo de vida. Pensamento influenciado pela religião do meu pai.

Agora que eu me sentia livre para duvidar da existência de deus sem culpa, eu passava a aceitar também a possibilidade da não existência dele. Eu devo ser uma pessoa boa pelo bem da convivência, pela empatia, pelo simples fato de que não devo fazer ao outro o que não gostaria que o outro fizesse comigo. Isto independe da existência de um ser superior. Eu me tornava então agnóstica. Não sabia se deus existia, no entanto não importava.

Mais leituras, mais reflexões e mais vivências, passei a me questionar por que é que mesmo pessoas boas sofrem tanto. Consequências de seus atos? E as condições que independem de nossas escolhas, como por exemplo, o país em que nascemos, uma deficiência física e etc? Se eu acreditasse em vidas passadas, poderia dizer que o sofrimento desta vida nada mais é do que consequência da anterior. Mas o espiritismo também tem toda essa crença de que o homem tem um espírito e é especial. Tarde demais pra eu acreditar nisso.

Começo a achar então que se deus existisse jamais deixaria haver tanta miséria no mundo. Jamais assistiria a tantas mazelas sem se manifestar. Ou ele não existe ou não é justo.

Após algum tempo pensando desta forma constatei: é… eu sou ateia.

Lendo o livro Sapiens do Yuval Harari, entendi o processo de criação de deuses e de crenças pelos homens, entendi que o ser humano é propenso a crer em algo superior pois não lida bem com as incertezas.

Quando digo que sou ateia, os teístas me perguntam se não acredito em nada mesmo. E hoje, aos 27 anos, após todo o processo descrito neste texto, não acredito mesmo em nada. Nenhuma divindade, seja ela boa ou má, nenhuma força sobrenatural, nenhum misticismo. E lido bem com isso.

Me perguntam o que eu faço quando as coisas dão errado, a quem eu recorro quando estou mal. E sou exatamente igual a qualquer pessoa teísta: reclamo, praguejo, choro, fico triste, anseio por dias melhores. A diferença é que eu não rezo, não oro… em vez disso recorro à minha psicóloga, minha família, meus amigos, meu namorado, à medicina…

Vez ou outra me pego pensando se fazer uma ou outra simpatia me colocaria mais próxima deste ou daquele objetivo. Isto não prova que o sobrenatural existe. Isto só prova que eu sou humana e que como todo e qualquer humano, tenho tendencia a acreditar em processos ritualísticos ainda que eles não tenham efeito algum.

Somos seres imaginativos. É confortável preencher as lacunas do que não entendemos com histórias fantásticas, mas isto não as torna reais.

Conversando com uma amiga teísta que me perguntou porque eu era ateia, falei de forma bastante resumida sobre alguns aspectos que trago neste texto. Começamos rindo mas ela foi ficando séria e reflexiva até dizer: “Ai credo, esse assunto é muito pesado!” como quem sentia culpa por ver sentido nos meus motivos e quisesse afastar tais pensamentos. Não tenho dúvidas de que há muitas pessoas que se tivessem interesse/acesso aos conteúdos que eu tive, também se tornassem ateias.

A ilustração que abre o post é um auto retrato de como me sinto. O ceticismo, o conhecimento, a ciência ampliaram meus horizontes, abriram minha mente e me fazem sentir livre.

Ateia em tempo integral. Artista nas horas vagas. Aprendiz de Marxismo.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store